[contém alguns spoilers]
Blessed be the fruit.
May the Lord open.
Abençoados sejam os frutos da série e que o Senhor abra os olhos de quem quer mantê-los fechados. Não queria dizer isto antes de ver o fim, mas agora estou decididamente convencida de que "The Handmaid's Tale" é uma das melhores séries de todos os tempos e de que um dia será assim reconhecida.
O poder das imagens de "The Handmaid's Tale" já serve para se fazerem protestos silenciosos por mulheres vestidas como Servas, sem que uma palavra precise de ser pronunciada ou mostrada em cartazes. Não é qualquer produto de Hollywood que consegue fazer isto, e, sem desprimor do livro, acredito que o impacto visual da série tenha contribuído inequivocamente para despoletar estas manifestações.
Política e realidade à parte, nem tudo é narrativamente perfeito nas seis temporadas de "The Handmaid's Tale", mas é quase, e este quase é muito importante. Já a nível da cinematografia, da cor, dos enquadramentos, do world building, das interpretações, da criação de um ambiente tão desconhecido e opressivo quanto, ao mesmo tempo, familiar e fascinante, não tenho nada a apontar. Depois de assistirmos à primeira temporada somos imediatamente transportados para lá só de vermos as cambiantes de cor que compõem as cenas, tal como em Gilead o código de cores define quem é quem.
Nesta nota, é engraçado como eles tiveram de filmar durante a pandemia e usaram as máscaras faciais como elemento ainda mais sinistro. "The Walking Dead" também fez isto, mas as polícias de Gilead aparecerem de repente de caras tapadas, como os verdadeiros algozes que são, e as Servas de rosto coberto como símbolo da sua opressão e falta de voz, teve um efeito mais aterrador.
De todas as qualidades da série, porém, talvez uma das mais significativas sejam mesmo as interpretações. Alguns actores tentaram fazer-se o mais repugnantes possível, mesmo sabendo que nunca vamos conseguir olhar novamente para a cara deles sem nos lembrarmos do que foram em "The Handmaid's Tale". Um grande aplauso para eles, principalmente os mais repulsivos.
Depois da quinta temporada, efectivamente a mais importante da série, o final traz-nos uma conclusão sólida, bem construída e merecida. Era minha intenção rever desde o início antes de ver o fim, mas, confesso, não fui capaz. Chateei-me aqui com pessoas que desistiram de ver a série por ser "muito violenta", mas eu vi tudo e li o livro, e não tive coragem de assistir novamente às partes mais perturbadoras, especialmente o ritual badalhoco da Cerimónia. Até para mim, que não gosto de enfiar a cabeça na areia, foi demais. "The Handmaid's Tale" não é um visionamento fácil, mas isto não é entretenimento. É distopia pura e dura, como "1984" ou "Fahrenheit 451", e é exactamente por isso que deve ser visto, para que nunca venha a concretizar-se devido a pessoas que no futuro fechem os olhos à realidade por terem sido demasiado flores de estufa para sequer ponderarem a ficção.
Não queria estar aqui com spoilers, mas depois de seis temporadas tenho alguns comentários finais.
June
Com todo o respeito pelo trauma da personagem, June tornou-se tão insuportável, manipuladora, egoísta e irresponsável na sua obsessão cega de destruir Gilead sem olhar aos meios, que até a sua melhor amiga, Moira, e o seu marido, Luke, desistem de a aturar e ameaçam virar-lhe as costas. Gostei disto, porque de facto June estava prestes a desprezar o que havia de mais valioso na sua vida em prol de uma luta que poderia nunca dar frutos e que nunca deveria sacrificar os que estão e são queridos por causa dos que partiram e já não regressam. Se Moira e Luke tivessem continuado a ser complacentes, se não tivessem tomado uma posição, June nunca abriria os olhos para o que mais se arriscava a perder para além do que já tinha perdido.
Pode-se argumentar que os grandes líderes têm de ser duros e implacáveis como June, mas eu apreciei, depois de tudo o que ela passou, que a tivessem chamado à razão antes que toda a humanidade se esvaísse.
Há uma cena na quinta temporada em que Mark Tuello, diplomata americano, tenta explicar a June que o combate mais importante é pela democracia, ao que June responde "nada disso me interessa sem a minha filha". Nessa altura, Tuello estava a tentar convencer June a ajudar a Resistência, o que ela não queria fazer para não pôr em risco a possibilidade de recuperar a filha, Hannah, por afrontar Gilead. Gostei que a personagem tenha finalmente encontrado o equilíbrio entre o possível e o impossível, entre a combatividade e a aceitação, entre a revolta e a paz de espírito.
Serena Joy e Comandante Lawrence
Serena Joy é provavelmente a personagem mais complexa de "The Handmaid's Tale". Se o Comandante Lawrence é apelidado de o "arquitecto de Gilead", Serena foi uma das suas ideólogas, se não mesmo a "mãe de Gilead". Menosprezada após a morte do marido, Serena passa por uma experiência de quase-Serva que lhe abre os olhos, mas Serena não é apenas uma crente, é uma fundadora, e acaba por regressar a Gilead para tentar mudar o regime que fundou. Nisto entra o papel do Comandante Lawrence, igualmente desgastado, que quer refundar Gilead em New Bethlehem, um empreendimento com os valores de Gilead mas sem a violência e os horrores do original. São ambos ingénuos? Talvez. Mas fundadores são fundadores e ambos acreditavam na validade e nos méritos da sociedade que ajudaram a criar.
Serena Joy tem alguma sorte. Não é sua intenção voltar a casar-se até encontrar o Comandante Wharton, que lhe faz a corte como um autêntico cavalheiro e lhe confessa que há muito tempo se apaixonou por ela. Mas, logo na noite de núpcias, Wharton tem uma Serva à espera deles. Serena argumenta que é fértil, não precisam de uma Serva. Esta passagem demonstra até que ponto os valores de Gilead se deterioraram. As Servas só deviam ser destacadas para casais inférteis, mas por esta altura ter uma Serva já era tão normal como ter escravos nos tempos da escravatura. E aqui acontece um dos melhores desenvolvimentos da sexta temporada. Serena passa-se completamente da cabeça, demonstrando como de facto evoluiu. A princípio pensamos que o Comandante Wharton não lhe vai permitir deixá-lo, mas também nos enganamos. Wharton não é outro Fred e até pondera abdicar da Serva se é essa a vontade de Serena. Wharton é um verdadeiro crente que põe a família e os deveres de procriação acima de todas as coisas, não é um porcalhão como os outros Comandantes. Afinal, Serena não foi tão enganada como parecia. Mas, crente genuíno ou não, Wharton não tem grandeza intelectual para pensar fora da caixa da ideologia.
O mesmo já não se pode dizer do Comandante Lawrence e do Comandante Blaine, prova de que ainda existem homens decentes (quanto possível) em Gilead. Quem desistiu da série não vai ter a satisfação de assistir a como Lawrence e Blaine fazem a folha ao Comandante Putnam, talvez o homem mais asqueroso de "The Handmaid's Tale" (o que é um feito tendo em conta a concorrência).
Desde que Lawrence apareceu, sempre nos questionámos sobre as suas verdadeiras motivações e inclinações. A sexta temporada esclarece-nos. Lawrence é um economista que delineou um modelo racional para enfrentar a crise de natalidade e que se arrepende amargamente por se ter aliado a "um bando de fanáticos religiosos" que lhe deturparam os princípios e estabeleceram a sociedade aberrante de Gilead. Foi bom sabermos disto.
Também foi bom que June e Lawrence não estivessem do mesmo lado da barricada, porque os dois juntos podiam ter destruído o mundo antes de pensarem nas consequências. Teria mesmo sido um casal feito no inferno.
Por falar em casal, ainda tenho esperança de que Serena Joy e Mark Tuello se entendam se ela abrir os olhinhos (e acho que acabou por abrir). Chamem-me romântica mas acho que havia ali qualquer coisa.
Tia Lydia e Mrs. Putnam
Não gostei da maneira como Naomi Putnam se safou com tanta facilidade. Redimida porque devolveu a bebé a Janine? Não estou a ver como. O que me parece é que Naomi desistiu da criança porque ficou viúva e já não tinha paciência para a aturar, aliás, como nunca teve. Naomi não era exactamente uma vilã mas também não era boa. Era uma mulher que se aproveitou da situação para assegurar a posição social e o privilégio, sem nunca se insurgir contra o estado de coisas, sem demonstrar um pingo de empatia pelos desfavorecidos. Penso que isto merecia algum castigo.
Mas, por falar em castigo, o que realmente me deu voltas ao estômago foi como se tentou redimir a Tia Lydia. Vou já dizer que acredito que todas as pessoas não-sociopatas se podem redimir, mas, se Mrs. Putnam se safou facilmente, à Tia Lydia saiu a sorte grande.
Tenho de confessar o nojo, o desprezo, o ódio que eu tenho à Tia Lydia e às outras Tias, mulheres cujo papel na sociedade de Gilead é o de controlar, fazer lavagem cerebral, torturar, submeter, escravizar outras mulheres pela força do dogma, convencê-las de que são abençoadas por serem violadas para servir Deus e o Estado.
Não sei sobre as outras Tias, mas a Tia Lydia, em particular, é burra. Não abriu os olhos nem depois de lhe darem uma tareia por "deixar fugir" algumas Servas. Burra, burra, burra. A Tia Lydia é tão burra que vê um homem bater a um burro e culpa o burro. Mulheres como Serena Joy são fanáticas, mulheres como Naomi Putnam são oportunistas, mas Lydia é burra. Já tínhamos visto antes como Lydia era uma mulher sexualmente frustrada que descarregava e se vingava nas outras, mas na sexta temporada, depois de tudo o que ela já tinha visto e sofrido na pele, só apetece dar-lhe uma tareia ainda maior. Não é que isso lhe curasse a burrice, que é incurável, mas pelo menos levava. A Tia Lydia é o género de mulher que é responsável por perpetuar o abuso dos homens sobre outras mulheres, e isso eu não perdoo. E a burrice ainda perdoo menos.
E para que não se pense que estou a perdoar Serena Joy muito facilmente, não estou. Serena Joy levou muitas tareias psicológicas e intelectuais, aquelas que lhe doem mais. A Tia Lydia safou-se com pouco.
By His hand, under His eye, praised be "The Handmaid's Tale", uma das melhores séries de sempre.
May the Lord open os olhinhos.
Curiosidade: Yvonne Strahovski (Serena Joy) foi a Hannah McKay de "Dexter", a serial killer com quem ele casou, e eu não a reconheci aqui, apesar das cenas escaldantes em "Dexter" e de uma das melhores cenas de sexo/sedução que já vi na vida. Isto é um elogio.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: devia ser obrigatório
PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984 (livro), Fahrenheit 451, Children of Men
The Handmaid’s Tale (2017-?)
The Handmaid’s Tale [terceira temporada]
The Handmaid’s Tale [quarta e quinta temporadas]
The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood






