domingo, 25 de janeiro de 2026

The Handmaid's Tale (2017 - 2025)

[contém alguns spoilers]

Blessed be the fruit.
May the Lord open.


Abençoados sejam os frutos da série e que o Senhor abra os olhos de quem quer mantê-los fechados. Não queria dizer isto antes de ver o fim, mas agora estou decididamente convencida de que "The Handmaid's Tale" é uma das melhores séries de todos os tempos e de que um dia será assim reconhecida.
O poder das imagens de "The Handmaid's Tale" já serve para se fazerem protestos silenciosos por mulheres vestidas como Servas, sem que uma palavra precise de ser pronunciada ou mostrada em cartazes. Não é qualquer produto de Hollywood que consegue fazer isto, e, sem desprimor do livro, acredito que o impacto visual da série tenha contribuído inequivocamente para despoletar estas manifestações.
Política e realidade à parte, nem tudo é narrativamente perfeito nas seis temporadas de "The Handmaid's Tale", mas é quase, e este quase é muito importante. Já a nível da cinematografia, da cor, dos enquadramentos, do world building, das interpretações, da criação de um ambiente tão desconhecido e opressivo quanto, ao mesmo tempo, familiar e fascinante, não tenho nada a apontar. Depois de assistirmos à primeira temporada somos imediatamente transportados para lá só de vermos as cambiantes de cor que compõem as cenas, tal como em Gilead o código de cores define quem é quem.
Nesta nota, é engraçado como eles tiveram de filmar durante a pandemia e usaram as máscaras faciais como elemento ainda mais sinistro. "The Walking Dead" também fez isto, mas as polícias de Gilead aparecerem de repente de caras tapadas, como os verdadeiros algozes que são, e as Servas de rosto coberto como símbolo da sua opressão e falta de voz, teve um efeito mais aterrador.
De todas as qualidades da série, porém, talvez uma das mais significativas sejam mesmo as interpretações. Alguns actores tentaram fazer-se o mais repugnantes possível, mesmo sabendo que nunca vamos conseguir olhar novamente para a cara deles sem nos lembrarmos do que foram em "The Handmaid's Tale". Um grande aplauso para eles, principalmente os mais repulsivos.
Depois da quinta temporada, efectivamente a mais importante da série, o final traz-nos uma conclusão sólida, bem construída e merecida. Era minha intenção rever desde o início antes de ver o fim, mas, confesso, não fui capaz. Chateei-me aqui com pessoas que desistiram de ver a série por ser "muito violenta", mas eu vi tudo e li o livro, e não tive coragem de assistir novamente às partes mais perturbadoras, especialmente o ritual badalhoco da Cerimónia. Até para mim, que não gosto de enfiar a cabeça na areia, foi demais. "The Handmaid's Tale" não é um visionamento fácil, mas isto não é entretenimento. É distopia pura e dura, como "1984" ou "Fahrenheit 451", e é exactamente por isso que deve ser visto, para que nunca venha a concretizar-se devido a pessoas que no futuro fechem os olhos à realidade por terem sido demasiado flores de estufa para sequer ponderarem a ficção. 
Não queria estar aqui com spoilers, mas depois de seis temporadas tenho alguns comentários finais.

June
Com todo o respeito pelo trauma da personagem, June tornou-se tão insuportável, manipuladora, egoísta e irresponsável na sua obsessão cega de destruir Gilead sem olhar aos meios, que até a sua melhor amiga, Moira, e o seu marido, Luke, desistem de a aturar e ameaçam virar-lhe as costas. Gostei disto, porque de facto June estava prestes a desprezar o que havia de mais valioso na sua vida em prol de uma luta que poderia nunca dar frutos e que nunca deveria sacrificar os que estão e são queridos por causa dos que partiram e já não regressam. Se Moira e Luke tivessem continuado a ser complacentes, se não tivessem tomado uma posição, June nunca abriria os olhos para o que mais se arriscava a perder para além do que já tinha perdido.
Pode-se argumentar que os grandes líderes têm de ser duros e implacáveis como June, mas eu apreciei, depois de tudo o que ela passou, que a tivessem chamado à razão antes que toda a humanidade se esvaísse.
Há uma cena na quinta temporada em que Mark Tuello, diplomata americano, tenta explicar a June que o combate mais importante é pela democracia, ao que June responde "nada disso me interessa sem a minha filha". Nessa altura, Tuello estava a tentar convencer June a ajudar a Resistência, o que ela não queria fazer para não pôr em risco a possibilidade de recuperar a filha, Hannah, por afrontar Gilead. Gostei que a personagem tenha finalmente encontrado o equilíbrio entre o possível e o impossível, entre a combatividade e a aceitação, entre a revolta e a paz de espírito.

Serena Joy e Comandante Lawrence
Serena Joy é provavelmente a personagem mais complexa de "The Handmaid's Tale". Se o Comandante Lawrence é apelidado de o "arquitecto de Gilead", Serena foi uma das suas ideólogas, se não mesmo a "mãe de Gilead". Menosprezada após a morte do marido, Serena passa por uma experiência de quase-Serva que lhe abre os olhos, mas Serena não é apenas uma crente, é uma fundadora, e acaba por regressar a Gilead para tentar mudar o regime que fundou. Nisto entra o papel do Comandante Lawrence, igualmente desgastado, que quer refundar Gilead em New Bethlehem, um empreendimento com os valores de Gilead mas sem a violência e os horrores do original. São ambos ingénuos? Talvez. Mas fundadores são fundadores e ambos acreditavam na validade e nos méritos da sociedade que ajudaram a criar.
Serena Joy tem alguma sorte. Não é sua intenção voltar a casar-se até encontrar o Comandante Wharton, que lhe faz a corte como um autêntico cavalheiro e lhe confessa que há muito tempo se apaixonou por ela. Mas, logo na noite de núpcias, Wharton tem uma Serva à espera deles. Serena argumenta que é fértil, não precisam de uma Serva. Esta passagem demonstra até que ponto os valores de Gilead se deterioraram. As Servas só deviam ser destacadas para casais inférteis, mas por esta altura ter uma Serva já era tão normal como ter escravos nos tempos da escravatura. E aqui acontece um dos melhores desenvolvimentos da sexta temporada. Serena passa-se completamente da cabeça, demonstrando como de facto evoluiu. A princípio pensamos que o Comandante Wharton não lhe vai permitir deixá-lo, mas também nos enganamos. Wharton não é outro Fred e até pondera abdicar da Serva se é essa a vontade de Serena. Wharton é um verdadeiro crente que põe a família e os deveres de procriação acima de todas as coisas, não é um porcalhão como os outros Comandantes. Afinal, Serena não foi tão enganada como parecia. Mas, crente genuíno ou não, Wharton não tem grandeza intelectual para pensar fora da caixa da ideologia.
O mesmo já não se pode dizer do Comandante Lawrence e do Comandante Blaine, prova de que ainda existem homens decentes (quanto possível) em Gilead. Quem desistiu da série não vai ter a satisfação de assistir a como Lawrence e Blaine fazem a folha ao Comandante Putnam, talvez o homem mais asqueroso de "The Handmaid's Tale" (o que é um feito tendo em conta a concorrência).
Desde que Lawrence apareceu, sempre nos questionámos sobre as suas verdadeiras motivações e inclinações. A sexta temporada esclarece-nos. Lawrence é um economista que delineou um modelo racional para enfrentar a crise de natalidade e que se arrepende amargamente por se ter aliado a "um bando de fanáticos religiosos" que lhe deturparam os princípios e estabeleceram a sociedade aberrante de Gilead. Foi bom sabermos disto.
Também foi bom que June e Lawrence não estivessem do mesmo lado da barricada, porque os dois juntos podiam ter destruído o mundo antes de pensarem nas consequências. Teria mesmo sido um casal feito no inferno.
Por falar em casal, ainda tenho esperança de que Serena Joy e Mark Tuello se entendam se ela abrir os olhinhos (e acho que acabou por abrir). Chamem-me romântica mas acho que havia ali qualquer coisa.

Tia Lydia e Mrs. Putnam
Não gostei da maneira como Naomi Putnam se safou com tanta facilidade. Redimida porque devolveu a bebé a Janine? Não estou a ver como. O que me parece é que Naomi desistiu da criança porque ficou viúva e já não tinha paciência para a aturar, aliás, como nunca teve. Naomi não era exactamente uma vilã mas também não era boa. Era uma mulher que se aproveitou da situação para assegurar a posição social e o privilégio, sem nunca se insurgir contra o estado de coisas, sem demonstrar um pingo de empatia pelos desfavorecidos. Penso que isto merecia algum castigo.
Mas, por falar em castigo, o que realmente me deu voltas ao estômago foi como se tentou redimir a Tia Lydia. Vou já dizer que acredito que todas as pessoas não-sociopatas se podem redimir, mas, se Mrs. Putnam se safou facilmente, à Tia Lydia saiu a sorte grande.
Tenho de confessar o nojo, o desprezo, o ódio que eu tenho à Tia Lydia e às outras Tias, mulheres cujo papel na sociedade de Gilead é o de controlar, fazer lavagem cerebral, torturar, submeter, escravizar outras mulheres pela força do dogma, convencê-las de que são abençoadas por serem violadas para servir Deus e o Estado. 
Não sei sobre as outras Tias, mas a Tia Lydia, em particular, é burra. Não abriu os olhos nem depois de lhe darem uma tareia por "deixar fugir" algumas Servas. Burra, burra, burra. A Tia Lydia é tão burra que vê um homem bater a um burro e culpa o burro. Mulheres como Serena Joy são fanáticas, mulheres como Naomi Putnam são oportunistas, mas Lydia é burra. Já tínhamos visto antes como Lydia era uma mulher sexualmente frustrada que descarregava e se vingava nas outras, mas na sexta temporada, depois de tudo o que ela já tinha visto e sofrido na pele, só apetece dar-lhe uma tareia ainda maior. Não é que isso lhe curasse a burrice, que é incurável, mas pelo menos levava. A Tia Lydia é o género de mulher que é responsável por perpetuar o abuso dos homens sobre outras mulheres, e isso eu não perdoo. E a burrice ainda perdoo menos.
E para que não se pense que estou a perdoar Serena Joy muito facilmente, não estou. Serena Joy levou muitas tareias psicológicas e intelectuais, aquelas que lhe doem mais. A Tia Lydia safou-se com pouco.

By His hand, under His eye, praised be "The Handmaid's Tale", uma das melhores séries de sempre.
May the Lord open os olhinhos.

Curiosidade: Yvonne Strahovski (Serena Joy) foi a Hannah McKay de "Dexter", a serial killer com quem ele casou, e eu não a reconheci aqui, apesar das cenas escaldantes em "Dexter" e de uma das melhores cenas de sexo/sedução que já vi na vida. Isto é um elogio. 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: devia ser obrigatório

PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984 (livro), Fahrenheit 451, Children of Men


The Handmaid’s Tale (2017-?)

The Handmaid’s Tale [terceira temporada] 

The Handmaid’s Tale [quarta e quinta temporadas] 

The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Daniel Isn't Real / Daniel: Amizade Aterradora (2019)

O título não prometia muito mas o filme surpreendeu-me.
Luke, em criança, arranja um amigo imaginário que lhe dá ideias e que o ajuda a superar o divórcio dos pais. Já na faculdade, num momento de stress, Luke volta a procurar Daniel. Mas Daniel torna-se cada vez mais controlador e Luke percebe que o amigo imaginário quer apoderar-se dele.
Este é um filme de baixo orçamento com efeitos especiais muito pobrezinhos e uma realização/montagem/edição sofrível, mas a história agarrou-me. Há muito tempo que um filme deste tipo não me interessava do princípio ao fim, apesar das falhas, o que já é um grande elogio. A qualquer momento eu esperava que a coisa descambasse, mas, surpresa, manteve-se credível até ao final.
O que nos prende ao enredo é tentar perceber se Daniel existe mesmo. A mãe de Luke é esquizofrénica e Luke tem horror de ter a doença também. No entanto, desde o início percebemos que Daniel encoraja Luke com uma maturidade muito superior à de uma criança. Mais tarde, Daniel continua a dizer coisas que Luke não pode saber, mas talvez Luke se questione se não tinha já ouvido a informação noutro lado. À medida que Daniel se torna cada vez mais ameaçador, Luke começa a ter alucinações e a acreditar que está louco. Mas estará?
Como disse, os efeitos especiais são muito mauzinhos, mas nesta parte das alucinações até escapam. O pior é quando já não são alucinações, mas a explicação implícita, de que Daniel é um amigo imaginário e usa a imaginação de Luke para o fazer ver o que quer, é plausível.
Notei que as críticas arrasam o filme mas que os espectadores não têm desgostado. Com mais orçamento e experiência, não duvido que este enredo teria dado um melhor filme, a começar pelo título.

13 em 20
 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Winchester / A Maldição da Casa Winchester (2018)

Um médico é mandado avaliar a sanidade mental de Sarah Winchester, herdeira e accionista maioritária da companhia Winchester (a das espingardas). Julga-se que Sarah Winchester já não está no seu juízo perfeito porque não pára de mandar reconstruir e ampliar a sua grande mansão, gastando fortunas no empreendimento. Na verdade, Sarah Winchester está convencida de que a sua família está amaldiçoada por todas as vítimas das armas Winchester e manda fazer essas divisões para apaziguar os espíritos dos mortos.
Este é daqueles filmes inspirados em "factos verídicos". A verdadeira Sarah Winchester mandou construir uma mansão excêntrica de arquitectura estranha e, claro, há quem diga que a mansão está assombrada. A mansão existe mesmo e é uma atracção turística.
Já tinha visto este filme e por alguma razão não escrevi sobre ele. Vi a segunda vez e não desgostei tanto, mas, convenhamos, "Winchester" é uma soma de clichés. Tem tudo: a casa assombrada, a criancinha possuída, a idosa reclusa e excêntrica. Até me pareceu um filme do nosso amigo James Wan ("The Conjuring"; "Insidious", etc), e não sou a única. De início, o cenário e a natureza das personagens é suficiente para criar uma atmosfera inquietante onde o terror pode vir a acontecer. Não seria de surpreender se esta mansão tenha contribuído para inspirar o livro "The Haunting of Hill House". O que me chateou mesmo no filme é quando o fantasma mau pega numa espingarda Winchester e começa a disparar sobre as pessoas, e quando as pessoas disparam de volta. Sim, isto é para meter as espingardas Winchester na história, mas... enfim. Vamos lá matar o espírito com tiros.
Recomendo a primeira parte do filme, antes de começar o tiroteio. Não é um bom filme e o fim estraga tudo, mas dá para entreter.

11 em 20

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Groundhog Day / O Feitiço do Tempo (1993)

Custa a acreditar, até a mim, mas só recentemente vi este filme. Até estava convencida de que era com Bruce Willis, mas acho que estou a confundir com "12 Monkeys" (que também ainda não vi). Apesar de não ter visto "Groundhog Day", já tinha ouvido falar muito sobre o filme, que já se tornou parte da cultura geral. Então, o que é que há aqui de tão bom?
Eu diria que é a originalidade. Phil, um meteorologista televisivo, egocêntrico e egoísta, vai fazer a cobertura do Groundhog Day, só para se ver condenado a repetir este dia uma e outra vez, sem que o amanhã nunca chegue e sem que ninguém que o rodeia esteja a passar pela mesma experiência.
O Groundhog Day, 2 de Fevereiro, é uma tradição americana que diz que neste dia a marmota sai da toca e, se conseguir ver a sua sombra, haverá mais 6 semanas de inverno. (Nós também temos um ditado assim: Natal à soalheira, Carnaval à lareira; e vice-versa.)
"Groundhog Day" parece o enredo de um filme de terror, mas curiosamente tenta ser uma comédia. Digo que tenta porque não achei graça nenhuma e até me pergunto que raio de humor as pessoas tinham nos anos 90 que achassem um tipo destes engraçado. A primeira coisa que Phil tenta fazer, quando se apercebe da situação, é obter informações sobre as mulheres que lhe agradam para no dia seguinte (que para ele é o mesmo) as conseguir seduzir melhor, mesmo que tenha de inventar mentiras para as convencer do que "têm em comum". É este o tipo de homem.
Passada esta fase, Phil entra em frustração e até em depressão, tentando suicidar-se de várias maneiras e por várias vezes (continuo sem achar graça nenhuma). A única parte que achei minimamente engraçada é quando ele decide, em desespero de causa, matar a marmota a quem culpa da "maldição". Não resulta.
O que realmente resulta, e é esta a substância do filme, é que à medida que o tempo passa (ou melhor, que Phil vive o mesmo dia vez após vez) ele se vai transformando num homem melhor, mais sensível aos outros, mais generoso, mais sincero. Ou seja, é uma metáfora para quem precisa de se tornar uma pessoa melhor de modo a atingir o que realmente deseja da vida.
"Groundhog Day" não é apenas uma comédia, é uma comédia romântica, e Phil apaixona-se pela produtora do programa, que não lhe liga nenhuma. Vão ser precisos dias, e dias, e dias, e dias, até que finalmente Phil consiga que ela o veja como o novo homem em que ele agora se tornou, de um dia para o outro, na perspectiva dela. E o feitiço fica quebrado.
Como comédia, já disse que não achei graça nenhuma. Como comédia romântica ainda menos: os actores não têm a menor química entre eles, já para não dizer que seria muito improvável que a produtora se perdesse de amores por Phil num único dia (para ela).
Desconheço se este foi o primeiro filme de um loop temporal, mas tudo indica que é o mais famoso e mais citado sempre que a situação se apresenta noutros filmes ou em cenários idênticos, no sentido literal ou figurativo. Só por isso vale a pena ver "Groundhog Day", mas para o meu gosto pessoal está demasiado datado e não tem piada nenhuma, se calhar, talvez, porque entretanto vi derivativos muito melhores.

12 em 20

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

The Menu (2022)

Se são daquelas pessoas que se choram porque não podem ir comer a um daqueles restaurantes de super-luxo, este filme é para vocês. Depois de verem isto, nunca mais desejarão pôr lá os pés. Eu sempre disse que a comida de ricos é sinistra: um cubo de carne, uma ervilha, uma pincelada de ketchup no prato a lembrar uma mancha de sangue: sinistro!
Mas falando do filme propriamente dito, uma dúzia de comensais dirige-se a um restaurante exclusivo, situado numa ilha, onde se pretendem deleitar com uma refeição ultra-fina de 1250 dólares por pessoa servida por um Chef (Ralph Fiennes) do mais prestigiado que existe. Mas depressa esta experiência de sonho se transforma num pesadelo.
"The Menu" não é um filme de terror de vão de escada. Pelo contrário, é um filme de qualidade, com actores reputados, um possível candidato aos Óscares e tudo. Tal como o menu apresentado no restaurante, também o filme é ambicioso e conceptual e quer ter um significado. É este significado que o filme não consegue cozinhar até ao fim, ficando muito "mal cozido".
De seguida vou discorrer sobre esse significado, sem spoilers, mas advirto os verdadeiros amantes de terror que o filme tem mais impacto se o virem sem saberem nada sobre ele. Fica à vossa consideração como preferem degustar esta delícia.
Então, o significado. À primeira vista, esta é história de um Chef (enlouquecido) que quer castigar os ricos que não conseguem apreciar a sua arte culinária mas que acham que o dinheiro lhes dá direito a ela. Deste modo, o Chef organizou esta refeição para os punir.
Até aqui tudo bem, mas não é assim tão linear e pôs-me a pensar quando o filme acabou (o que é sempre bom). Alguns dos presentes são ricos, de facto, e clientes regulares deste restaurante astronomicamente caro, mas muitos deles não são. A questão aqui é: porque é que merecem ser castigados? As personagens nunca são muito desenvolvidas. Não sabemos ao certo porque é que foram "escolhidos". De alguns temos "pistas" que nos informam que são de facto criaturas vis, por diferentes razões, mas depois temos os outros. Por exemplo:
A esposa do cliente rico que costuma ir ao restaurante. O que é que ela fez? Daquilo que nos é dado a ver, não fez nada. Porque é que merece ser castigada?
A crítica de culinária, a quem o Chef acusa de ter escrito artigos que arruinaram alguns restaurantes, é de facto uma snob, mas só estava a fazer o seu trabalho e percebe-se que a senhora sabe do que fala. Aliás, foi esta colunista quem descobriu e promoveu o Chef deste mesmo restaurante, prova de que não faz sempre críticas negativas. E os restaurantes que critica são topo de gama, não é o restaurante da esquina que ao fechar portas coloca uma família inteira no desemprego. E nada nos diz que a colunista é rica. Ela está ali, tal como o seu editor, a convite do Chef. Então, porque é que ela merece ser castigada?
O editor. Coitado, o editor não faz nada senão concordar em tudo com a colunista e percebe-se de caras que é um banana. Merece ser castigado por ser banana?
Os três colegas. Estes não são ricos de certeza, embora declarem que ganham muito bem. Estão ali porque trabalham na firma do investidor do restaurante como forma de usufruírem de um bónus qualquer. É possivelmente a primeira vez que têm oportunidade de visitar um restaurante destes. Vem-se a saber que a firma para onde trabalham pratica falcatruas (facturas falsas, offshores, o costume) e que eles conhecem as ilegalidades. Mas eles são empregados. Todos os empregados devem ser castigados pelas vigarices dos patrões? Haveria sequer prisões onde os meter a todos se assim fosse?
Penso que é aqui que o filme não consegue estrelar o ovo sem o desmanchar, o que é pena porque a premissa ia muito bem. Se nos dessem motivos válidos para odiarmos estas personagens poderíamos aplaudir que fossem "grelhadas" como mereciam, mas o problema é que não merecem. Sendo assim, muito do significado perde-se no "são ricos e pensam que têm o mundo na barriga" (o que nem é verdade para todos), e as culpas retornam à procedência: ao Chef louco com um facalhão de cozinha.
Não estou a dizer que um Chef louco com um facalhão de cozinha dê um mau filme, estou apenas a reclamar da qualidade da ementa que nos é servida. Com todos estes ingredientes, este podia ter sido um banquete inesquecível mas ficou-se por um repasto que não me encheu completamente as medidas.
E, acima de tudo, a minha maior crítica ao filme, porque é que os presentes permanecem tão calmos e serenos numa fase dos acontecimentos em que já deviam estar desesperados e em pânico e dispostos a tudo? A mim parece-me que os realizadores se esqueceram de que estes personagens são humanos, não são vegetais como batatas e cenouras a enfeitar o prato. Nesta altura já deviam ser carnívoros a fazer correr sangue. Nem sequer vou implicar com o fim de determinada protagonista, que me pareceu inverosímil no total da situação.
Ainda assim, muito bom. Servia-me duas vezes sem pensar na dieta.

14 em 20

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Singularity / Singularidade (2017)

A premissa até é boa, o resto do filme é que não. Num mundo cada vez mais controlado pela Inteligência Artificial, um super-computador, Kronos, é criado para resolver todos os problemas do mundo. Diz o filme que Kronos, em menos de um piscar de olhos, percebeu logo que os problemas do mundo são causados pela humanidade e passou imediatamente a destruí-la.
Vou já fazer aqui um aparte porque, apesar da minha inteligência ser apenas natural, concordo completamente com o computador. Por muito avançado que este seja, o código base agiria assim:

_ TASK: SAVE HUMANITY
_ SUB-TASK 1: DETECT PROBLEM
_ _ PROBLEM DETECTED: HUMANITY
_ _ CORRECT PROBLEM: TERMINATE HUMANITY
_ _ PROBLEM CORRECTED: HUMANITY TERMINATED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
_
_
_
_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
_
_
_
_ REBOOT
_ SUB-TASK 1: DETECT PROBLEM
_ ACCOMPLISHED
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ _ HUMANITY TERMINATED
_
_
_
_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
_
_
_
_ REBOOT
_ SUB-TASK 2: SAVE HUMANITY
_ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _ CRITICAL ERROR _ _ _
_ SHUTTING DOWN SYSTEM
_ REBOOT
_
_


E é por isso que não podemos deixar estes dilemas morais à Inteligência Artificial, porque a Inteligência Artificial não consegue resolver problemas morais porque não tem consciência moral. Ter consciência moral não é obedecer a um código/norma moral, é compreender porque é que o código moral existe, corrigi-lo se necessário, e criar novas normas quando as antigas já não são válidas. É por isso que os seres humanos desobedecem a ordens que violem os seus princípios, coisa que a Inteligência Artificial também não tem.
Mas isto já é muita filosofia para este filme, que descamba num Young Adult muito pobrezinho e nada original.
97 anos depois da destruição da esmagadora maioria dos seres humanos pelas próprias máquinas de guerra que eles criaram, apenas uns poucos sobrevivem.
Katniss... isto é, a jovem Calia (toda vestida à Katniss, arco e flechas, cabelo e tudo) tenta encontrar o último reduto da humanidade, um local quase mitológico chamado Aurora. No trajecto, encontra outro jovem, Andrew, que a acompanha. A meio do caminho, Calia descobre que Andrew é um robô/andróide, criado para ganhar a confiança dos humanos, mas Andrew não sabe que é uma máquina, tipo Cylons na série "Battlestar Galactica". Por esta altura Calia já está apaixonada pelo robô, e ele por ela (?...). E o que é que ela faz? Leva-o direitinho a Aurora.
Esta humanidade merece mesmo ser exterminada. Só há uma coisa pior do que a ruindade, e essa é a estupidez. Geralmente as duas andam de mãos dadas. Esta criatura arriscou levar um robô espião ao último reduto da humanidade, sem pensar que estava a ajudar as máquinas a localizar e destruir os possíveis sobreviventes. Exterminem já esta criatura!
Não vou dizer o que é que acontece a seguir, porque aqui o filme torna-se quase incompreensível e o final não faz sentido nenhum. Basicamente, é um Young Adult muito mal feito. A protagonista, a última da sua família/grupo, sobrevivendo escondida em florestas e subúrbios desertos, anda vestida e penteada como quem saiu de um pronto-a-vestir e de um cabeleireiro. As casas onde ambos se escondem, que deviam estar abandonadas há décadas, não têm pó nem uma única teia de aranha, como se os donos tivessem ido de férias há uma semana. Porque é que há gente a fazer filmes de ficção científica em que nem estas coisas básicas são respeitadas?
"Singularity" é um filme muito mau que nem o romance rapariga/robô consegue vender. A evitar.

10 em 20 


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

💜Canções preferidas, álbuns relevantes e descoberta de 2025 / 2025: favourite songs, relevant albums, discovery💜

Há alguns anos que tenho feito esta lista mentalmente, mas, em 2025, para não chegar ao fim do ano e não me lembrar de nada, fui mais esperta e comecei a tomar nota de potenciais canções preferidas desde Janeiro. 
A meio do ano apercebi-me de que devia também ter anotado lançamentos relevantes, aqueles que até podem não incluir uma das minhas canções preferidas mas que merecem atenção e audição.
Este ano recebi uma média de 10 lançamentos por dia nas áreas do gótico, post-punk, darkwave e afins, o que dá uma brutalidade de cerca de 3600 álbuns, singles, EPs e remixes, e ouvi tudo, em muitos casos mais do que uma vez. Mas acontece que sou muito esquisita e selectiva, o que também significa que estas escolhas são, na minha opinião, o melhor do melhor.
Esta é uma lista de canções preferidas de 2025 unicamente segundo o meu gosto pessoal. Se falhou alguma coisa importante, é possível que eu não esteja na mailing list. Por favor deixem em comentários.

For several years now I've been making this list mentally, but, in 2025, I got smarter and I've written down potential favourite songs since January, so I wouldn't forget all about them by the end of the year.
Midway through the year, I realised that I should have also noted down relevant releases, the kind that may not include any of my favourite songs but that do deserve attention and a listen.
This year I received an average of 10 releases a day in the goth, post-punk, darkwave and similar genres, which amounts to a brutality of 3600 or so albums, singles, EPs and remixes, and I've listened to everything, in many cases more than once. The thing is, I’m very picky and selective, which means these choices are, in my opinion, the best of the best.
This is a list of my favourite songs of 2025, based solely on my personal taste. If I've missed anything important, it's very possible that I'm not on that mailing list. Please let me know in the comments.


Canção preferida de 2025 / Favourite song of 2025

💥Valisia Odell - An Arabian Tale💥

Esta canção apanhou-me de surpresa e foi paixão instantânea. Obrigada à malta do Festival Entremuralhas/Extramuralhas por ter trazido Valisia Odell. Já não é a primeira vez que só conheço uma banda porque vem ao festival de Leiria.👍

This song took me by surprise and it was an immediate infatuation. Thank you guys from Festival Entremuralhas/Extramuralhas for bringing Valisia Odell. It's not the first time I've only discovered a band because they have brought them to Leiria's festival.👍


Outras canções preferidas de 2025 / Other favourite songs of 2025

Black Angel - LUXX

Black Rose Burning - Into The Black

Bootblacks - Leipzig (feat. Oskar Carls [VIAGRA BOYS])

Corpus Delicti - Crash

Creux Lies - Apocalypto

Date at Midnight - Useless Love

Echoberyl - Morgana

Gothzilla - DES PER ATE 

Long Night - Ghost

Octavian Winters - Hermine 

Peter Murphy - The Artroom Wonder

Pink Turns Blue - Stay For The Night

Rosa Crux - 1335

Rosetta Stone - Connect The Dots

Talk To Her – PLD

The Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

The Red Moon Macabre - Black Chiffon Melee *

The Red Moon Macabre - Carmilla *

* É muito difícil escolher lançamentos de The Red Moon Macabre porque o projecto tem sido tão prolífico que eu perdi a conta por volta dos 20 álbuns em 3 anos (mas já vai em mais). Tentando ser justa, escolhi uma canção de Janeiro e outra de Novembro. Aproveito para destacar o álbum "Shelley's Monster" (que inclui "Carmilla"), uma homenagem em rock gótico à literatura de terror do século XIX. Está aqui quase tudo: Carmilla, Frankenstein, a Mulher de Branco, Jekyll And Hyde, Varney, Dorian Gray (Drácula não precisa de estar porque The Red Moon Macabre já lhe dedicou vários temas).

* It's very difficult to choose releases from The Red Moon Macabre because the project has been so prolific that I've lost count around the 20 albums in 3 years (but meanwhile it became a lot more). In an attempt to be fair, I chose one song from January and another from November. I'll take this opportunity to highlight the album "Shelley's Monster" (which includes "Carmilla"), a goth rock homage to 19th century horror literature. Almost everything is here: Carmilla, Frankenstein, the Woman in White, Jekyll and Hyde, Varney, Dorian Gray (no need to include Dracula since The Red Moon Macabre already have several songs about him).


Álbuns relevantes / Relevant albums

Black Rose Burning - The Fear Machine

Bootblacks - Paradise 

Corpus Delicti - Liminal 

Merciful Nuns - FINISTERE

Peter Murphy - Silver Shade

Pink Turns Blue - Black Swan

Red Lorry Yellow Lorry - Strange Kind Of Paradise

Rosetta Stone - Dose Makes The Poison

Talk To Her - Pleasure Loss Desire

The Chameleons - Arctic Moon

The Red Moon Macabre - Shelley's Monster

ULTRA SUNN - The Beast In You

Valisia Odell - Shadow of a Dream


Descoberta de 2025 / Discovery of 2025

Lung Overcoat *

* Lung Overcoat foi uma banda efémera que deixou apenas meia dúzia de canções arrepiantemente boas que só/finalmente descobri em 2025.

* Lung Overcoat was an ephemeral band that only released half a dozen chillingly good songs that I only/finally discovered in 2025.


domingo, 4 de janeiro de 2026

The Walking Dead: Dead City (2023 - ?) [segunda temporada]


Continuam as aventuras de Maggie e Negan em Nova Iorque. No continente, a federação autoritária Nova Babilónia pretende invadir Manhattan para obter a produção de metano. Em Manhattan, os líderes do gangue mais poderoso querem que Negan chefie a defesa contra Nova Babilónia. Maggie é recrutada à força por Nova Babilónia para lutar contra Manhattan.
Como já aqui disse algures, de todas as spin-offs de "The Walking Dead" esta era aquela que acreditava menos que pudesse resultar, porque Maggie e Negan juntos prenunciava que se matavam um ao outro no primeiro episódio, mas enganei-me. Continuo a preferir "Daryl Dixon" por várias razões, mas "Dead City" surpreendeu-me. A primeira temporada foi muito boa, principalmente a nível do world building. Nunca tínhamos visto Nova Iorque depois do apocalipse zombie e a série deu-nos uma imagem muito nítida da devastação e abandono. A nível dramático também fiquei agradavelmente impressionada. A relação de Maggie e Negan tornou-se mais complexa, mais densa, mais imprevisível, e tudo de modo natural, sem ser forçado. Conhecendo a história entre os dois, isto não é pouca proeza!
Esta segunda temporada não é tão boa como a primeira mas a premissa continua a ser sólida. Num mundo pós-apocalíptico em que vale a lei do mais forte, tanto Nova Babilónia (que quer restaurar o país ao que era dantes) como os líderes dos gangues de Nova Iorque, quase todos, são vilões implacáveis. Ambos os lados são malvados e só estamos a torcer para que morram depressa. Nova Babilónia é uma federação que agrega várias comunidades obrigadas a "agregar-se". Para esta guerra pelo metano, recrutam pessoas à força e enforcam os "desertores" a torto e a direito, até num mundo em que a mão-de-obra não é exactamente abundante e em que as pessoas são necessárias para produzir comida. Os vilões de Nova Iorque também são maus como as cobras. Sabendo quem era Negan, querem obrigá-lo a ser o mesmo líder sanguinário do passado e até lhe arranjam uma nova Lucille. Negan recusa, mas os seus captores ameaçam-lhe a família, esposa e filho. Maggie, do outro lado, também é forçada a colaborar para poupar a sua comunidade.
O maior problema desta temporada é que os vilões são efectivamente de banda-desenhada, são maus porque sim. Isto é a spin-off a cair nos mesmos erros da série original, outra vez, depois de uma primeira temporada mais promissora. Na mesma senda, se a primeira temporada conseguiu humanizar Negan (como nem a série principal conseguiu), aqui esse desenvolvimento de personagem está comprometido. Negan aceita assumir o papel de líder brutal e impiedoso para salvar a família mas, quando finalmente eles estão perto, de um momento para o outro, decide que afinal ele é "mau para eles" (e com razão) e manda-os embora. Até compreendo o que se queria conseguir, mas isto foi demasiado abrupto e mal vendido. 
Maggie também muda de ideias de um instante para o outro de forma a roçar o implausível e a recordar "Fear The Walking Dead". De igual modo, Hershel, filho de Maggie e Glenn, é um adolescente "naquela idade" rebelde, mas o que ele faz aqui já entra no campo da burrice. Crianças e adolescentes a agir estupidamente foi outro dos problemas da série original. Uma vez é normal; sempre é demais. A própria Maggie, como mãe, está a ser muito mole. O puto ainda tem idade de levar umas estampilhas e até as merece. É agora ou nunca, e Maggie até sabe disso porque teve um pai muito sábio mas muito rígido e isso só lhe fez bem.
Em suma, as personagens estão a começar a agir ao contrário das suas personalidades estabelecidas e isso é um grande problema em termos de coerência e até de narrativa. Negan não podia ter mandado embora a mulher e o filho porque tudo o que ele fez nesta temporada foi na tentativa de voltar para eles. Maggie não tinha razões para ficar em Manhattan tanto tempo quando já poderia ter regressado a casa. Reduzir a inteligência e manipular as motivações dos personagens consoante interessa às reviravoltas do enredo é um insulto para os personagens e para os espectadores. "Dead City" está neste momento perigoso em que ainda não escorregou totalmente por ali abaixo mas ameaça derrapar. Seria pena, porque isto até estava a correr bem. Tendo em conta o nível de qualidade a que "The Walking Dead" caiu, "Dead City" foi uma boa surpresa e eu não queria que acabasse mal.
Quanto aos momentos positivos, a segunda temporada continua a apostar no world building. Os militares de Nova Babilónia vestem-se a lembrar um western ou um exército dos tempos da Guerra da Independência, um dos vilões de Manhattan parece um aristocrata do século XIX e outro parece um personagem de "A Guerra dos Tronos". Isto é demasiada Fantasia, e muito conveniente para fazer "bons bonecos", mas consegue ser engraçado. Afinal, pelo menos que o apocalipse zombie sirva para que as pessoas mandem a moda às urtigas e se vistam como bem lhes apetece. Se todos os problemas de "Dead City" fossem estes!
Outra coisa de que gostei. O Central Park está transformado num matagal tipo selva e cheio de zombies e animais selvagens que fugiram do jardim zoológico. Isto é aproveitado e até podia ser mais, mas compreendo que não o tenham feito. As pessoas que gostam destas séries estão aqui pelos zombies, não é para ver animais a atacar pessoas e pessoas a matar animais.
Também aprendemos que as melhores iguarias de Nova Iorque são baratas, ratazanas e cobras (?). Foi muito bem apanhado, sim senhor.
E só desta vez reparei que a Estátua da Liberdade não está apenas danificada por causa dos bombardeamentos, também ela parece um bocadinho zombificada. Óptimo pormenor do genérico.
O último episódio tem momentos muito tensos que só não são convincentes porque já sabemos que vai haver mais temporadas. Eu esperava outro desenvolvimento de Maggie e Negan, mas não fiquei insatisfeita porque a ideia principal foi lá parar também. 
"Dead City" ainda se recomenda pelo world bulding, pelos cenários de uma Nova Iorque deserta e em ruínas, e pelos zombies. (Esqueci-me de falar nos combates de zombies, que acabaram por ser mais interessantes do que pareciam.) Mas "Dead City" está no estado periclitante de uma spin-off a ficar sem ideias e a tentar encher chouriços. Neste momento, uma terceira temporada poderá ser muito boa ou muito má. Há muito tempo que não dizia isto de um produto "The Walking Dead", mas a esperança não está perdida. Mesmo assim, cenário por cenário, continuo a preferir "Daryl Dixon".

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies

Nota: Estava a ver isto no AMC e fiquei chocada com a quantidade de anúncios de sites de apostas online e produtos de barbear dirigidos a um público jovem e masculino. Sinto-me discriminada. Onde é que estão os anúncios aos champôs, aos cremes, aos detergentes? Há donas de casa a ver isto que querem conhecer o novo detergente da louça 1000 vezes mais desengordurante e tão eficaz como Lucille. Não me lembro de "Daryl Dixon" ter anúncios tão dirigidos ao público masculino, o que significa que Daryl Dixon é encarado pelo mundo da publicidade como um sex symbol masculino, mas Negan será encarado como um action figure só apreciado por homens? Mas Maggie não é também um exemplo de mulher durona? Serei a única mulher a ver isto? Agora fiquei com problemas existenciais que não sei resolver. Quem sou eu? Onde pertenço? Serei normal? Se não sou normal, o que sou? Serei real? Será que existo? Quero anúncios para mim, se faz favor.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Goth Club Classics

Inspired by DJ Dead Parrot's stream Goth Club Classics, here's my list of club hits circa the early 2000s. I'm missing those that never made it to my music files, but please refresh my memory.
This is my experience, what's yours? 

Alien Sex Fiend - Dead And Buried
Anathema - Fragile Dreams
Bauhaus - Kick In The Eye
Clan of Xymox - Louise 
Corpus Delicti - Saraband
Covenant - Dead Stars
Depeche Mode - Personal Jesus
Die Form - Rain Of Blood
Echo & The Bunnymen - Lips Like Sugar
Fields Of The Nephilim - Moonchild
Front 242 - Headhunter
Heroes Del Silencio - Entre Dos Tierras
Joy Division - Love Will Tear Us Apart
Marilyn Manson - The Beautiful People
Moonspell - Vampiria
New Order - True Faith
Nick Cave & The Bad Seeds - Deanna
Nine Inch Nails - The Perfect Drug
Nitzer Ebb - Join In The Chant
Paradise Lost - Say Just Words
Peter Murphy - Indigo Eyes
Rammstein - Du Hast
Red Lorry Yellow Lorry - Hollow Eyes
Rosetta Stone - Adrenaline
Siouxsie and the Banshees - This Wheel's On Fire
Soft Cell - Sex Dwarf
Suspiria - Glitter
The Chameleons - In Shreds
The Creatures - Exterminating Angel
The Cult - She Sells Sanctuary
The Cure - Burn
The Merry Thoughts - Pale Empress
The Mission - Severina
The Prodigy - Firestarter
The Sisters of Mercy - Lucretia My Reflection
Tiamat - Brighter Than The Sun
Type O Negative - Black No. 1 
Virgin Prunes - Baby Turns Blue
VNV Nation - Darkangel 
Wolfsheim - Once In a Lifetime

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Das Boot / A Odisseia do Submarino 96 (1981, filme)

Com o título português "A Odisseia do Submarino 96" eu nunca teria encontrado este filme, o original (baseado no livro homónimo de Lothar-Günther Buchheim) que deu origem a "Das Boot", uma das melhores séries que já vi na vida. Por sorte consegui ler "u-boat" na sinopse e calculei que fosse o filme original. Mas, mesmo que tivesse conseguido encontrar o filme, sem ter visto a série com toda a certeza não lhe pegava julgando-o mais um filme de guerra chato e comprido. Portanto, é chato ou não é?
Não é chato, é chatíssimo, e não é comprido, é descomunal: três horas e meia. Mas a versão original uncut do director chega às 4 horas e meia (!), o que deu origem a uma mini-série.
O filme não é só comprido, é lento, lento, lento. Tirando a cena inicial num cabaret antes de os marinheiros embarcarem e de uma cena a meio em que desembarcam para receber instruções, o filme inteiro é passado dentro do submarino e a acção é mostrada segundo-a-segundo até já não haver paciência. Eu tentei agarrar-me às passagens que conhecia da série, mas, lamento, após uma hora de filme comecei a desconcentrar-me, liguei a música, pus-me a conversar num chat, e nem mesmo assim o filme andava para a frente.
Por volta do meio do filme tive de parar e ver o resto no dia seguinte. Por esta altura já só queria que o filme acabasse, que eles cumprissem a missão e fossem para casa ser condecorados pelo Fürer ou que se afogassem todos. E então apercebi-me do essencial: mas qual era a missão deles, afinal? O filme não se importa com isso, dá a entender que os mandaram para o mar à maluca para afundar tudo o que aparecesse. O mesmo se passa quando os enviaram para o Mediterrâneo. Porquê? Eu estava na expectativa de que fosse o ouro (como na série), mas mais uma vez nunca nos é dito. Isto é, nunca percebi o que raio eles andavam a fazer de um lado para o outro. O filme não nos informa da estratégia, só se preocupa em mostrar como é que a tripulação manobra o submarino, como vive, come, dorme, como passa o tempo em que não acontece nada (e durante muito tempo não acontece nada). Percebo o objectivo. Queriam fazer-nos sentir o que é estar dentro de um submarino em tempo de guerra. Curiosamente, a série conseguiu fazer isso, e mais e melhor.
O filme vale pelos últimos 10 minutos, num final verdadeiramente épico. Mas estes 10 minutos de acção, para um filme tão lento, foram tão mal filmados que fiquei com aquela sensação irritante de não ter percebido nada do que estava a acontecer. Tive de voltar atrás e ver de novo. Como é que é possível que um filme tão lento, segundo-a-segundo, acabe com uma cena de acção tão apressada que não se percebe o que está a acontecer precisamente no momento mais importante? E, no entanto, li críticas a elogiarem este filme como um dos melhores filmes de guerra de sempre! Ora, eu não recomendaria esta tortura a ninguém, excepto talvez a fanáticos de filmes de guerra e de submarinos em especial, porque há malucos para tudo.
A música da série "Das Boot" é a mesma do filme, mas com muito melhores arranjos, certas passagens da série coincidem, mas com enredo, coisa que o filme não tem, e por aí fora, a série é tão melhor do que o filme que nem há comparação.
O que retirei daqui, do tal final épico, é que muito possivelmente a série pode não ter chegado ao fim se conseguirem espremer mais uma boa temporada até ao fim da história.
Conclusão, série cinco estrelas, filme nem uma.

10 em 20